José Ovejero |
As vidas alheias |
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p. 277 Emtrar na casa de um morto provocava-lhe uma sensação que não devia ser muito diferente da que sentiram aqueles que, pela primeira vez, quebraram os selos das cãmaras mortuárias dos faraós. Abre-se frente dele, incólume, o expressivo álbum formado pelos objectos que sobreviveram ao defunto. Inspeccionar os referidos objectos é um trabalho de arqueologia do indivíduo, um percurso pela sua história, os seus pecados, os seus afectos, as suas paixões e as suas angústias. Nenhum objecto está mudo, embora a linguagem de alguns seja dificilmente inteligível e se torne necessário encostar-lhes o ouvido, ouvir os seus murmúrios para intuir, se não o significado, pelo menos o tom em que nos falam. Uma vida feliz deixa marcas diferentes das de uma triste. E tal como com frequência se pode identificar um objecto per la sombra que projecta, é possível reconstruir uma vida pelos tesíduos que deixou. Também quando é deitada abaixo uma casa ficam nas casas contiguas marcas que como as marcas deixadas por trilobites e fetos pré-históricos na pedra revelam o tipo de mundo que desapareceu para sempre... (...)
Traduçao: Maria do Carmo Abreu
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